Aires Ferreira (1441) e Martins Ferreira (1487)
Uma malfeitoria de Aires Ferreira
José Marques em A Arquidiocese Braga no Séc. XV (Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988) refere uma malfeitoria grave de Aires Ferreira. Estavam em causa direitos de pesca no Rio Ave, em Bagunte, que sempre tinham pertencido ao Mosteiro de São Simão da Junqueira.
Escreveu o historiador na página 800:
Mais expressivo, porém, consideramos o litígio com Aires Ferreira, fidalgo da casa do duque de Bragança e conde de Barcelos, ocorrido nos primeiros tempos do priorado de João do Casal e julgado, em Braga, no dia 6 de Novembro de 1444. No geral a causa do diferendo residia no seguinte: Aires Ferreira tinha esbulhado pela força ao Mosteiro o canal da Fisga, sito na freguesia de Bagunte, desde tempos imemoriais possuído pelos religiosos da Junqueira. Aí costumavam pescar pacificamente, armando as suas nassas. Ultimamente, porém, os homens do referido fidalgo esbulharam o Mosteiro dos seus direitos, exercendo, além disso, coacção psicológica sobre os seus membros, como consta do libelo acusatório:
“…Item, (o Mosteiro) provar entende que poderá aver um anno que o dicto Airas Ferreira per sua força e autoridade forçou e esbulhou o dicto prior e Mosteiro do dicto canall e da posse em que estavam de pescar e levar o husso delle defendendo ao dicto prior e a todos os seus e a Diogo Afonso e a Joham Afonso de Vila Verde emnassadores por o dicto Mosteiro que nom fosem ao dicto canall nem ho emnassasem por o dicto Mosteiro, prometendo que se hii achasse o prior ou cada huum dos seus que os lançasse ennassado per o riio a fundo”.
Face a tão peremptória intimidação, abstiveram-se, prudentemente, os religiosos de voltar ou mandar pescar ao canal da Fisga – “asy que por ameaças do dicto Airas Ferreira, por seer homem poderosso, o dicto prior nem he housado pescar nem tomar o pescado na dicta pesqueira e canal per sii nem per outrem” – passando a ver-se no local Estêvão Pires, escudeiro, e criado de Aires Ferreira, a orientar os trabalhos de ennassar o canal e recolher peixe.
Felgueiras Gaio tem poucas certezas a respeito de Aires Ferreira, mas associa-o ao Duque de Bragança.
Aires Ferreira é o pai de Martim Ferreira de que se fala a seguir.
Lintel da Casa de Cavaleiros do Museu de Soares dos Reis.
Leitura da inscrição
«Era de mil quatrocentos e trinta e sete (?); mandou
fazer Martim Ferreira esta obra.»
Segundo o Nobiliário das Famílias de Portugal, Martim Ferreira, fidalgo da Casa Real, terá nascido cerca de 1440. “Logrou” a Casa de Cavaleiros sob D. Afonso V e D. João II. Era filho de Aires Ferreira o Velho, que casara primeiro com Isabel Pereira de Lacerda, de quem teve nove filhos, e depois com D. Joana Fogaça, da qual teve mais cinco. Um filho do primeiro casamento e outro do segundo faleceram na Índia.
Martim Ferreira “serviu algum tempo D. Fernando, Duque de Beja, e acrescentou o Palácio da Quinta de Cavaleiros, onde mandou pôr as armas dos Ferreiras e Pereiras”, como consta do lintel. Não terá atingido grande velhice, senão estaria ainda vivo nas primeiras décadas do séc. XVI, ao tempo de D. Manuel.
Teve treze filhos; um deles morreu na Índia e três filhas foram freiras (uma em Vairão, outra em S.ta Clara, outra em Vale de Pereiras, Ponte do Lima).
Sucedeu-lhe o primogénito, Estêvão Ferreira, que foi pai da Joana d’Eça que está sepultada no Convento da Encarnação em Vila do Conde.
Estas informações permitem-nos pôr em causa a leitura que alguns fazem da data do lintel. Não pode ser nem 1437 nem 1447, como sugere outro autor. Será talvez 1487, correspondendo a letra que precede os três xx a um L.
Por outro lado, resolve-se a dificuldade dos autores que não souberam decifrar o significado da cruz, que é a do brasão dos Pereiras. Os brasões representados são assim o dos Pereiras, que era o da mãe de Martim Ferreira, e o dos Ferreiras, que era o da sua família.
A obra do acrescentamento do Palácio de Cavaleiros terá sido desenvolvida acaso ainda no contexto dos benefícios que D. Afonso V concedera à nobreza.

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