Senhores de Cavaleiros
A Casa de Cavaleiros há-de ter chegado a ser muito ampla pois parece terem vivido la várias famílias e foi com certeza reconstruída várias vezes, mesmo que só tenhamos notícia de duas reconstruções.
Na história da família, há o
período da ligação dos Cavaleiros ao Mosteiro da Junqueira, que foi o tempo dos
descendentes de Fáfia Guterres e dos Ferreiras; há depois o período da sua
ligação ao Convento de São Francisco, que corresponde sensivelmente ao séc.
XVI; os Cavaleiros passam então a ser conhecidos como Ferreiras d’Eça. Em
finais do séc. XVI, vão para Guimarães, onde se mantêm, com algumas
intermitências, até meados do séc. XVIII. Os Cavaleiros posteriores, condes a
partir do começo do séc. XIX, viverão em paragens variadas.
Até ao séc. XV, a principal fonte
de informação para esta casa são os documentos do cartulário do Mosteiro da
Junqueira (em parte publicados por Sérgio Lira) e um trabalho genealógico de
Manuel Abranches de Soveral; depois, passa a ser o Nobiliário das Famílias de Portugal, até ao começo do séc. XIX.
Para os derradeiros Cavaleiros tem de se procurar informação noutras fontes.
Porquê Cavaleiros? Porventura, cavaleiros templários.
Manuel Abranches de Soveral: Ensaio sobre a origem dos
Ferreira: http://www.soveral.info/mas/Ferreira.htm
1 - Fáfia Guterres:
foi provavelmente o primeiro senhor de Cavaleiros. Sérgio Lira alvitra que ele fosse
irmão de Paio Guterres, para quem D. Afonso Henriques criou em 1135 o Couto da
Junqueira. É mencionado em dois ou três documentos. Ainda vivia em 1151, mas
devia ter perto de 90 anos. Em 1176, os seus filhos estabeleceram um acordo
para a divisão pacífica da herança paterna.
2 - Pedro Fafes: terá
falecido em 1210. É possível que tenha herdado a casa do seu irmão Soeiro
Fafes. Devia ser filho duma segunda esposa do pai e ter nascido alguma dezena de
anos antes da morte dele. Fez testamento: entre outras deixas, mandou que se
dessem dois casais a S. Simão da Junqueira; mandou também que lhe comprassem um
“monumentum petrinum” (túmulo em pedra), certamente uma arca funerária ou
sarcófago. A esposa chamava-se Elvira Peres e sobreviveu ao marido.
3 - Desconhecido.
Embora, pelo nome, o Cavaleiro seguinte pareça filho do anterior, supomos que
tenha havido entre ele e Martim Peres outro Cavaleiro, tal é a distância temporal
que os separa.
4 - Martim Pires
ou Martinho Peres: fez testamento em
1289. Os anos deviam pesar sobre ele pois já era casado em 1251 e assim deveria
ser dono de Cavaleiros em 1258, quando se fizeram as Inquirições de D. Afonso
III. Se foi assim, ele ou os seus orgulhavam-se de descender de D. Fáfia
Guterres.
Pelo testamento e por muitos outros documentos que dele nos
chegaram, vê-se que era um homem rico, com propriedades em muitos lugares.
Martim Pires teve filhos fora do casamento e roubou de diversos
modos. Mas houve então outros poderosos, bem seus conhecidos, que roubaram
ainda mais. Ele vinha do tempo em que o Conde de Bolonha se apoderou do trono,
afastando o irmão, Sancho II.
Ao aproximar-se a morte, parecia arrependido e foi generoso.
A esposa chamava-se Sancha Garcia. De notar que construiu capela dedicada a
“Santa Maria” no Mosteiro de S. Simão da Junqueira.
5 - Garcia Martins:
chegaram-nos documentos dele de tempo em que o pai ainda vivia e posteriores,
mas não o testamento. Era cavaleiro. Em 1300, manda passar um documento em
Torres Vedras. A mulher chamava-se Maria Martins. Não terão tido filhos.
6 – Estêvão Pires Ferreira:
pouco se sabe dele. Pode ter sido genro de Garcia Martins. Segundo um documento
de 1288, estavam no Casal de Cavaleiros um Martim Pires do Casal e um Estêvão
Pires do Casal. O segundo podia já ser Estêvão Pires Ferreira.
7 - Estêvão Ferreira
I: nasceu cerca de 1310 e faleceu depois de 3.1.1393, data do seu
testamento na quintã do Casal de Cavaleiros.
Em 1375, estando nas suas “pousadas” do Porto, “Estêvão
Ferreira, escudeiro, e sua mulher, Mor Martin” fizeram doação ao Mosteiro de S.
Simão da Junqueira do casal e meio de Chantada e casal Gontinho com obrigação
de umas missas cantadas cada ano.
Este Estêvão Ferreira casou a primeira vez com Mor Martins e
a segunda com Mécia Vasques.
As filhas Catarina Ferreira e Guiomar Ferreira foram freiras
no convento de Santa Clara de Vila do Conde.
8 - Gomes Ferreira
D. Gomes Ferreira, filho de Estêvão Ferreira acima, foi cónego
de Santo Agostinho e faleceu a 20.4.1448 no convento de Santa Cruz de Coimbra;
estudou em Paris, indo depois para Roma, onde foi conselheiro do Papa Eugénio
IV, que lhe deu a abadia de Santa Maria de Florença, ordem camaldulense, de que
depois foi geral. Em 1436 veio a Portugal como legado do Papa, trazendo a D.
Duarte a bula da cruzada com muitos benefícios. D. Duarte fê-lo depois
prior-mor do convento de Santa Cruz de Coimbra, onde faleceu.
9 - Martim Ferreira I
10 - Aires Ferreira:
Aires Ferreira o Velho, casou primeiro com Isabel Pereira de Lacerda, de quem
teve nove filhos, e depois com D. Joana Fogaça, da qual teve mais cinco. Um
filho do primeiro casamento e outro do segundo faleceram na Índia.
11 - Martim Ferreira
II. Reconstruiu Cavaleiros; é o do lintel.
Segundo o Nobiliário das Famílias de Portugal, este Martim
Ferreira, fidalgo da Casa Real, terá nascido cerca de 1440. “Logrou” a Casa de
Cavaleiros sob D. Afonso V e D. João II. Era filho de Aires Ferreira o Velho,
que casara primeiro com Isabel Pereira de Lacerda, de quem teve nove filhos, e
depois com D. Joana Fogaça, da qual teve mais cinco. Um filho do primeiro
casamento e outro do segundo faleceram na Índia.
Martim Ferreira “serviu algum tempo D. Fernando, Duque de
Beja, e acrescentou o Palácio da Quinta de Cavaleiros, onde mandou pôr as armas
dos Ferreiras e Pereiras”, como consta do lintel. Não terá atingido grande
velhice, senão estaria ainda vivo nas primeiras décadas do séc. XVI, ao tempo
de D. Manuel.
Teve treze filhos; um deles morreu na Índia e três filhas
foram freiras (uma em Vairão, outra em S.ta Clara, outra em Vale de Pereiras,
Ponte do Lima).
Sucedeu-lhe o primogénito, Estêvão Ferreira, que foi pai da
Joana d’Eça que está sepultada no Convento da Encarnação em Vila do Conde.
Estas informações permitem-nos pôr em causa a leitura da
data do lintel. Não pode ser nem 1437 nem 1447, como sugere outro autor. Será
talvez 1487, correspondendo a letra que precede os três xx a um L.
Por outro lado, resolve-se a dificuldade dos autores que não
souberam decifrar o significado da cruz, que é a do brasão dos Pereiras. Os
brasões representados são assim o dos Pereiras, que era o da mãe de Martim
Ferreira, e o dos Ferreiras, que era o da sua família.
A obra do acrescentamento do Palácio de Cavaleiros terá sido
desenvolvida acaso ainda no contexto dos benefícios que D. Afonso V concedera à
nobreza.
Comentários
Enviar um comentário