Um feitor de Cavaleiros, João Machado Ferreira (século XVII)

Conta-se que a Casa de Cavaleiros recebia de rendas “um carro de pão por cada dia do ano mais doze para os ratos”. Pode haver algum exagero nestes números, mas não deve ser muito. Mas isto é muito cereal, dezenas de toneladas. E implica muitas coisas: cuidados para que todos os rendeiros pagassem o que era devido, cuidados para os carregamentos estivessem certos, grandes celeiros e vendas em quantidades significativas. Só destas vendas é que resultava dinheiro para os senhores da casa. E era preciso prestar contas, cuidar da casa, que os donos raramente habitavam.

A Casa de Cavaleiros precisava por isso de feitores de confiança.

Só se conhece o nome dum desses feitores, o de João Machado Ferreira. Ele ocorre nos registos paroquiais desde 1721 a 1760 quer do Outeiro Maior quer de Bagunte. Chegou portanto ainda em tempo de Manuel Ferreira de Eça e continuou no lugar em tempo de seu filho Gregório.

Era natural do Porto, da freguesia de S. Nicolau. Como os seus apelidos de Machado e Ferreira são apelidos de Senhores de Cavaleiros, podia-se pensar que fosse da família, mas não era. 

Faleceu em 15 de Março de 1762 e “elegeu sepultura na igreja de Bagunte”, onde foi sepultado no dia 17, “envolto em hábito de S. Francisco”, como anotou o pároco do Outeiro Maior.

Há um ex-voto na Capela de Nossa Senhora das Neves, restaurado e por isso em bom estado de conservação, que teve origem na cura duma baqua deste feitor de Cavaleiros. Tem o interesse de mostrar a Senhora das Neves com o Menino e a frente duma “casa colmaça”, à direita.

 

Baptizado duma neta de João Machado Ferreira

 Uma neta de João Machado Ferreira foi baptizada como Maria das Neves, naturalmente em honra de Nossa Senhora desta invocação. Veja-se:

Maria das Neves, filha legítima de Manuel José Cabral e de sua mulher, Maria Josefa Joaquina, assistentes na Quinta de Cavaleiros, desta freguesia, neta pela parte paterna do capitão António da Silva Cabral e de sua mulher Ana Maria de Jesus, moradores na cidade do Porto, ao padrão de Belmonte, da freguesia da Vitória, e pela materna de João Machado Ferreira e de sua mulher, Rosa Maria da Silva, assistentes na mesma Quinta de Cavaleiros e moradores na mesma cidade do Porto, na freguesia de S. Nicolau, nasceu aos 11 dias do mês de Outubro de 1753 anos e foi baptizada solenemente por mim abaixo-assinado aos 17 dias do dito mês e ano. Foram seus padrinhos o sobredito João Machado Ferreira e Nossa Senhora das Neves, sendo tocada com a sua coroa. Foram testemunhas o Rev. D. Rodrigo de S. João[1], vigário de Parada, e seu paroquiano, Rev. Pe. Manuel António Lopes, e muitos mais eclesiásticos que presentes estavam. E por ser verdade fiz o presente assento, dia mês e ano ut supra.

O Vigário, João Francisco

D. Rodrigo da Silva

João Machado Ferreira

 Este ajuntamento festivo, embora ocorresse na Igreja Paroquial do Outeiro Maior, não deixava de constituir também uma homenagem a Nossa Senhora das Neves. De notar que o documento tem a assinatura de João Machado Ferreira.

Os vigários de São Martinho do Outeiro e de Parada deviam ser ambos monges de São Simão da Junqueira.



Assento de baptismo de Maria das Neves. Repare-se que contém a assinatura do avô.




[1] O tratamento de dom dado ao pároco de Parada tem a ver certamente com o facto de ele ser monge de São Simão da Junqueira, onde pode ter sido prior


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